Licitações entram na era dos agentes de inteligência artificial

Ferramentas de IA começam a analisar editais, selecionar oportunidades e identificar riscos em um mercado público que movimenta centenas de bilhões de reais.
A inteligência artificial começa a ganhar espaço nas licitações brasileiras. Além de localizar editais, novas ferramentas conseguem interpretar documentos, verificar requisitos, comparar preços e selecionar oportunidades. Ao mesmo tempo, órgãos de controle utilizam a tecnologia para identificar riscos e irregularidades nos processos.
Segundo um artigo da Bloomberg Línea, com dados atribuídos ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), as compras governamentais representam um mercado estimado em R$ 1 trilhão, com mais de 1 milhão de compras registradas no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) em 2025.
O PNCP, criado pela Lei nº 14.133/2021, centraliza informações de contratações da União, estados e municípios, incluindo editais, contratos, atas de registro de preços e Planos de Contratações Anuais (PCA).
Levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) mostra a dimensão dessa base. Entre agosto de 2021 e junho de 2024, foram registradas 873,8 mil contratações bem-sucedidas no PNCP, movimentando mais de R$ 355 bilhões em valores homologados.
Agentes de IA analisam licitações
A novidade está no avanço dos chamados agentes de inteligência artificial, sistemas desenvolvidos para executar tarefas específicas dentro de um processo.
Um exemplo é a Settle, startup brasileira que devolveu mais de 100 agentes de IA voltados para analisar licitações.
As ferramentas fazem triagem de editais e avaliações técnica, jurídica, comercial e de habilitação, além de classificar oportunidades conforme o escopo do processo.
Para as empresas, esse tipo de tecnologia pode reduzir o trabalho necessário para acompanhar milhares de oportunidades e ajudar a identificar processos compatíveis com seus produtos e serviços.
A análise dos dados do PNCP também permite acompanhar contratos anteriores, preços praticados e demandas previstas nos Planos de Contratações Anuais.
TCU também utiliza inteligência artificial
A tecnologia também avança na fiscalização. O TCU utiliza o Alice 360, ferramenta que combina análise de dados e inteligência artificial para identificar possíveis indícios de sobrepreço nas compras públicas.
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O sistema cruza informações de editais e contratos com históricos de preços além de gerar alertas que posteriormente são avaliados pelos auditores.
Segundo o Tribunal, 15 dos 51 ofícios enviados a órgãos licitantes em trabalho recente de acompanhamento tiveram origem nas descobertas do Alice 360, com benefícios financeiros contabilizados próximos de R$ 1,67 milhão.
Em outra fiscalização sobre compras realizadas entre junho de 2025 e março de 2026, o TCU utilizou IA para analisar informações do PNCP, Compras.gov.br e Diário Oficial da União. Entre os problemas encontrados estavam deficiências nas pesquisas de preços, fragilidades no planejamento e baixa qualidade dos dados.
O que muda para municípios e empresas
Para as prefeituras, o avanço da análise automatizada aumenta a importância da qualidade das informações publicadas no PNCP. Descrições imprecisas de objetos, unidades de medida inadequadas ou pesquisas de preços deficientes podem prejudicar comparações e aumentar o risco de inconsistências.
A questão é especialmente relevante porque os municípios concentram grande quantidade dos processos. Em levantamento do TCU com dados até junho de 2024, as administrações municipais responderam por 402,2 mil contratações diretas, equivalentes a 63,2% das operações dessa categoria entre as três esferas de governo.
Para as empresas, a IA pode facilitar a identificação e a análise inicial de oportunidades. Um sistema pode examinar milhares de documentos e indicar quais licitações apresentam maior compatibilidade com determinado fornecedor.
A tecnologia, porém, não elimina a necessidade de análise humana. A interpretação do edital, a preparação da proposta, a documentação de habilitação e o cumprimento das exigências continuam exigindo acompanhamento técnico.
O cenário aponta para uma nova etapa das compras públicas: empresas utilizando agentes de IA para encontrar oportunidades e órgãos públicos empregando a mesma tecnologia para analisar dados, comparar preços e identificar riscos.

Com a expansão do PNCP, a inteligência artificial tende a transformar o grande volume de informações das contratações públicas em uma base cada vez mais utilizada para orientar decisões e fiscalizar os gastos públicos.
Por: Lucas A L Brandão/Portal Convênios – Fontes: PNCP/TCU/Bloomberg.


