TCE/MG: Shows Artísticos Pressionam Orçamento dos Municípios de Pequeno Porte

Números de empenho — valores reservados no orçamento público para gastos específicos — parecem abstratos em uma tabela, mas revelam realidades concretas quando cruzados com indicadores socioeconômicos.

Esse cruzamento de dados orçamentários mostra que, enquanto grandes economias diluem gastos festivos sem impacto perceptível, pequenos municípios comprometem parcelas significativas de recursos públicos ao contratar grandes nomes do entretenimento.
A Coordenadoria de Imprensa do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) analisou os valores empenhados por doze municípios mineiros fiscalizados pela área de auditoria da Casa de Contas, e identificou correlações entre os montantes destinados a espetáculos em 2024 e 2025, com a realidade demográfica e, econômica de cada localidade.
O cruzamento considerou os valores contratuais, o tamanho da população e o Produto Interno Bruto (PIB) municipal, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Santa Bárbara do Tugúrio: maior custo per capita entre os municípios analisados
No topo do ranking de gastos com shows está Santa Bárbara do Tugúrio, no Campo das Vertentes. Com população estimada de 4.245 habitantes (IBGE, 2025), o município previa desembolsar R$ 1,93 milhão com eventos de grande porte — o que representa um custo per capita de R$ 454,65 por habitante em dois anos, o maior índice entre as 12 cidades avaliadas.
O impacto fiscal é ainda mais evidente quando relacionado ao PIB: os gastos previstos consumiriam 2,70% do Produto Interno Bruto municipal, estimado em R$ 71,4 milhões.
Especialistas alertam que destinar quase 3% de toda a riqueza gerada por um município em um único ano para eventos efêmeros compromete diretamente a capacidade de investimento em saúde, educação e saneamento básico.
Cenário semelhante foi identificado em São Vicente de Minas, na região de Barbacena. Com 6.928 moradores (IBGE, 2025), a prefeitura reservou R$ 2,16 milhões para a realização de eventos artísticos, resultando em um custo de R$ 377,45 por habitante e comprometendo 1,37% do PIB local.
A dança das escalas
O contraste mais revelador dessa política de gastos aparece quando analisamos Ipatinga, no Vale do Aço — município que lidera o ranking em valores absolutos entre os 12 cidades avaliadas, com R$ 2,24 milhões empenhados.
Ainda assim, diante de uma população estimada em 235.311 habitantes e um PIB de R$ 12,4 bilhões, o impacto fiscal é residual: o gasto por morador cai para R$ 9,53, e a fatia comprometida do PIB municipal não ultrapassa 0,02%.
O mesmo fenômeno se repete em Sacramento, no Triângulo Mineiro. O investimento de R$ 1,4 milhão em shows representa apenas 0,09% da economia local — avaliada em R$ 1,5 bilhão —, com custo per capita de R$ 49,86 por habitante.
A leitura comparativa dos dados chama atenção para outro aspecto: municípios com perfis demográficos e econômicos semelhantes apresentam estratégias de gasto com eventos completamente distintas. A divergência aponta menos para limitações orçamentárias e mais para escolhas políticas locais — o que reforça a relevância do controle externo exercido pelo TCEMG sobre o uso dos recursos públicos.
São João do Oriente e. São Vicente de Minas têm populações na faixa dos 7 mil habitantes. Porém, São Vicente de Minas colocou no orçamento valor seis vezes maior – em termos absolutos (R$ 2,16 milhões contra R$ 360 mil) – e comprometeu quase quatro vezes mais o seu PIB proporcional (1,37% contra 0,38%).
Outra reflexão que pode ser feita diz respeito ao “piso de custo” do mercado de shows, que não leva em consideração o tamanho do público ou mesmo a realidade financeira municipal. Para contratar artistas de grande apelo nacional, uma prefeitura pequena precisa desembolsar valores brutos muito próximos aos de uma cidade grande.
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Sete dos doze municípios analisados empenharam na faixa de R$ 1,1 milhão a R$ 1,6 milhão, independentemente de terem 5 mil habitantes (como Crucilândia) ou 28 mil habitantes (como Sacramento).
A única anomalia, fora da tendência identificada, é São João do Oriente, no Vale do Rio Doce. Embora seja uma cidade pequena (7.420 habitantes) e com PIB baixo (R$ 94,6 milhões), o gasto com shows foi de R$ 360.000,00. Isso conteve seu custo per capita em R$48,51 e o impacto no PIB municipal em 0,38%. Essa exceção mostra uma tendência de comportamento alternativo: quando o gestor local decide adequar o porte do evento à realidade financeira do município, os indicadores automaticamente se alinham a patamares de responsabilidade das grandes cidades.
Valor de metrópole
A curva decrescente das barras azuis mostra que o mercado de shows dita um custo mínimo de entrada que ignora a realidade local.
Ipatinga (com mais de 230 mil habitantes) e Santa Bárbara do Tugúrio (cidade de apenas 4 mil moradores) aparecem no mesmo bloco do gráfico. Ambas empenharam valores brutos muito próximos (na casa dos R$ 2 milhões).
A análise do gráfico permite, ainda, afirmar que não existe um ou dois municípios “vilões” puxando os gastos para cima. Dos 12 municípios analisados, 11 mantiveram seus empenhos acima da expressiva marca de R$ 1,1 milhão em dois anos. Apenas São João do Oriente destoa da curva, aparecendo isolada na ponta direita com um gasto menor (R$ 360 mil).
E, embora visualmente as barras de Ipatinga e Santa Bárbara do Tugúrio tenham tamanhos parecidos na tela, o impacto real dessas barras na vida do cidadão é radicalmente oposto. O gráfico indica a capacidade de diluição do gasto.
Enquanto em Ipatinga o valor da barra azul representa centavos por morador, nas cidades menores que ocupam o centro do gráfico (São Vicente de Minas e Santa Bárbara), cada pixel (menor unidade que compõe uma imagem digital) da barra representa centenas de reais retirados de impostos que poderiam financiar áreas essenciais, como saúde e saneamento.

Confira a série de reportagens do TCEMG mostra como shows engolem verbas de serviços essenciais em Minas e Farra no orçamento público: falta recurso para escolas, mas sobra para espetáculos. Acesse também o relatório produzido pelos técnicos do Tribunal e o painel “Shows artísticos municipais“, que mapeou eventos festivos entre 2020 e 2024 realizados pelos municípios do estado.
Por: jornalismo TCE/MG


