Como as Fake News Sobre o Pix Ajudaram o PCC e Atrapalharam a PF
Fake News do Pix beneficiaram o PCC e atrapalharam a PF. Entenda como Nikolas Ferreira ajudou na desinformação que enfraqueceu a Receita e as investigações da Polícia Federal.
A deflagração das operações Carbono Oculto, Quasar e Tank, nesta quinta-feira (28), revelou como a onda de fake news sobre a taxação do Pix no início do ano acabou beneficiando diretamente o crime organizado e dificultando a fiscalização da Receita Federal e as investigações da Polícia Federal.
Segundo o secretário especial da Receita, Robinson Barreirinhas, a desinformação foi “a maior campanha de mentiras já sofrida” pelo órgão e “ajudou o crime organizado”, em especial o Primeiro Comando da Capital (PCC).
“Essas fake news foram tão fortes que, apesar de todo o esforço da Receita Federal, ajudada pela mídia tradicional, não conseguimos reverter as mentiras. Tivemos que dar um passo atrás e revogar a instrução normativa. E as operações de hoje mostram quem ganhou com essas mentiras: o crime organizado”, disse Barreirinhas em coletiva de imprensa para detalhar as descobertas.
Esquema do PCC movimentou R$ 52 bilhões
As operações miram um gigantesco esquema de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. De acordo com a Receita, o PCC utilizou mais de 1.000 postos e distribuidoras para movimentar R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
Parte fundamental da engrenagem foi a atuação de fintechs usadas como “bancos paralelos”, além de fundos de investimento e empresas de fachada. Uma única fintech movimentou R$ 46 bilhões no período. Ao todo, há 350 alvos em oito estados.
Como as fake news desmontaram a fiscalização
A peça central da polêmica foi a Instrução Normativa RFB nº 2.219/2024, publicada em setembro do ano passado. A regra previa que fintechs e operadoras de cartão passassem a reportar dados financeiros à Receita por meio da plataforma e-Financeira — a mesma que já monitorava bancos.
O objetivo era fechar brechas usadas por esquemas de lavagem de dinheiro. Mas, em janeiro de 2025, as fake news sobre uma suposta “taxa do Pix” viralizaram nas redes sociais. Mesmo após o desmentido oficial do governo, a pressão digital levou à revogação da norma e à edição de uma medida provisória proibindo qualquer taxação sobre o Pix.
Com isso, mais de 200 fintechs ficaram fora do alcance da Receita, reduzindo drasticamente a capacidade de monitoramento de transações suspeitas. Foi esse “apagão regulatório” que, segundo a PF e a Receita, dificultou a investigação dos esquemas ligados ao PCC.
O vídeo de Nikolas Ferreira
Um dos principais vetores da desinformação foi um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), no qual ele acusava o governo de criar um “imposto do Pix”.

A gravação viralizou e ultrapassou 200 milhões de visualizações, tornando-se a principal peça de pressão política para a revogação da regra. Na época, o parlamentar chegou a ironizar: “Se era fake news, por que revogou?”.
Agora, com a revelação do esquema bilionário do PCC, membros do governo afirmam que a decisão de recuar não foi prova da existência da taxação, mas sim uma medida para conter os danos da mentira. A consequência prática, dizem, foi o enfraquecimento da fiscalização sobre fintechs, aproveitado pelas organizações criminosas.
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Na tarde desta quinta-feira (28), o deputado Reimont (PT-RJ) protocolou na Procuradoria Geral da República (PGR) um ofício ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, pedindo a abertura de investigação contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
Próximos passos
Após a operação, o Ministério da Fazenda anunciou que irá recriar as regras de monitoramento para instituições de pagamento, devolvendo à Receita o mesmo poder de rastreamento que já tinha sobre bancos.
Segundo a subsecretária de Fiscalização, Andrea Costa Chaves, a ausência dessas informações “impactou diretamente a visibilidade sobre os fluxos financeiros ilícitos”, exigindo muito mais tempo de investigação.
Linha do tempo
- Setembro/2024 — Receita publica a IN RFB nº 2.219/2024, ampliando a fiscalização.
- Janeiro/2025 — Viralizam fake news sobre “imposto do Pix”; governo recua e revoga a norma.
- Agosto/2025 — Receita e PF deflagram operações Carbono Oculto, Quasar e Tank; descobrem movimentação de R$ 52 bilhões ligada ao PCC.
O que diz Nikolas Ferreira
Até a publicação desta reportagem, o deputado Nikolas Ferreira mantinha sua posição de que não propagou fake news e que o erro foi do governo ao editar a norma.
Por: Lucas A L Brandão/Portal Convênios.